Direto de NY, saiba tudo sobre a Women’s March

A pequena Journey Peters, de apenas 3 anos, nos ombros da mãe, Yael Leopold.

Thiago Jabuonski, de 31 anos, e Katherine Calaway, de 29, eram alguns dos manifestantes. “Um verdadeiro homem apóia a igualdade de direitos”, disse Thiago, que se mudou do Brasil há sete anos.

Larissa Gomes é jornalista e mora no Brooklyn, em Nova York, há quatro anos. Formada pela New York Film Academy, escreve mensalmente para Marie Claire e colabora com sites, como o Refinery29. Jornalista de lifestyle, moda e beleza, ela se interessa por todos os assuntos que circundam o universo feminino

24/01/2017 - por We Pick

O We Pick resolveu fazer algo diferente. Para quem não acompanhou, este último fim de semana aconteceu, nos Estados Unidos, um momento histórico. Não estamos falando da posse do Trump, estamos falando da Women’s March, uma manifestação coletiva em várias cidades do país a favor dos direitos pela igualdade de gênero. E para falar sobre isso, pedimos a autorização da equipe da Lamparina Scope para reproduzirmos aqui a super matéria da jornalista Larissa Gomes, que mora em Nova York há quatro anos. Esperamos que vocês gostem!

Quando você não está bem, o apoio de uma amiga pode ser o diferencial para se reerguer. Agora imagine que não apenas uma amiga, mas sim 400 mil pessoas te estenderam as mãos. Foi esse sentimento acolhedor e de união que tomou as ruas de Nova York no último sábado, 21 de janeiro, durante a Women’s March (Marcha das Mulheres). A eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos causou um sentimento de decepção dilacerante, e também de medo, em quem confiava, como eu, na vitória da candidatura de Hillary Clinton. Porém, aos poucos, a frustração se transformou em vontade de agir. Se depender de uma grande parte da população, a agenda anti-minorias de Trump encontrará barreiras para ser colocada em prática.

A marcha principal aconteceu em Washington, capital do país. Mais de 500 mil pessoas participaram e mandaram uma mensagem forte para o mundo e para o novo governo logo em seu primeiro dia de atuação: os direitos das mulheres são direitos humanos. No entanto, a Women’s March não apenas levantou as bandeiras feministas, como também as do movimento negro, dos imigrantes, do meio ambiente e da comunidade LGBT. Todos atacados duramente por discursos de Trump durante a corrida presidencial.

Como brasileira e moradora de Nova York há quatro anos, senti que precisava fazer parte dessa aliança de pessoas que compartilham valores contrários aos do novo presidente norte-americano. Era meio-dia quando cheguei no ponto de encontro, em frente à estação de metrô Grand Central. De lá, a marcha seguiu pela Quinta Avenida até o destino final, a Trump Tower, sede do império do empresário.

Apesar do frio de quase 0 grau daquele sábado, enfrentaria até neve se fosse preciso para que a voz das mulheres pudesse ser ouvida. O metrô estava lotado como nunca tinha visto antes. Eram filas até mesmo para descer as escadas e chegar na plataforma do trem. Algumas pessoas finalizavam os cartazes da marcha ali mesmo. O olhar de euforia era contagiante. Quando saí da estação, dei de cara com o Batalá, um grupo de percussão só de mulheres de origem brasileira e com sons de Salvador. Logo me senti em casa.

Com a ajuda de alguns amigos, puxamos vários gritos de guerra. É empoderador poder gritar frases de luta como “Meu corpo, minhas escolhas”, “Isso é com o que uma democracia se parece. O presidente não me representa.” Cada voz que se une ao coro é uma validação extra de que outras pessoas compartilham dos mesmos sentimentos e de que juntas somos mais fortes.

Mix de etnias e gerações
Todas as idades, raças e religiões se uniram nas ruas nova-iorquinas como um sinal de resistência. O frio intenso do inverno americano não impediu que a pequena Journey Peters, de apenas 3 anos, participasse da manifestação. Nos ombros da mãe, Yael Leopold, ela segurava, sorridente, muitos balões de gás. Em cada um deles se liam frases de ordem como “vamos defender nossos direitos”. “Estamos aqui para apoiar as causas feministas de famílias com diferentes etnias, para lutar pelas mulheres e pelo movimento negro”, disse Yael, quando me aproximei dela. Essa é a segunda marcha em que ela traz Journey. Há duas semanas, mãe e filha também estiveram na passeata do dia de Martin Luther King.

​Cartazes e slogans marcaram a manifestação de forma tranquila e pacífica. Um dos mais populares foi o “Love Trumps Hate” (“Amor vence o ódio”, em tradução livre. Trump, em inglês, também é um verbo e significa se sobrepor, dominar). Mary Quirk, uma americana de 82 anos, que andou uma parte da marcha ao meu lado, carregava esse lema no pescoço. “Vim apoiar minhas irmãs de todo o mundo. Apesar do novo governo não ser uma boa notícia para os direitos das mulheres, precisamos nos unir e começar a trabalhar por mudanças.” Mary saiu de Stamford, que fica em Connecticut, e foi para Manhattan em um comboio de 80 mulheres para participar do protesto.

Duramente atacados durante os discursos de Trump ainda como candidato, outros imigrantes como eu compareceram em peso. Thiago Jabuonski, de 31 anos, e Katherine Calaway, de 29, eram alguns deles. “Um verdadeiro homem apóia a igualdade de direitos”, disse Thiago, que se mudou do Brasil há sete anos. “Como médica, estou muito preocupada com a situação dos direitos das mulheres nesse novo governo, principalmente quando se trata aos direitos de reprodução”, comentou a texana Katherine.

A adolescente Fashana Fletcher, de 14 anos, reuniu seus amigos do colégio para irem juntos à passeata. “Sou jamaicana e moro aqui há seis anos. Fico apreensiva com as medidas que ele poderá impor contra os imigrantes, principalmente os ilegais. Esse país tem como base de sua construção a diversidade cultural”, me disse, enquanto caminhávamos lado a lado.

A marcha ao redor do mundo
A Women’s March ganhou adeptas em outras cidades como Berlim, Londres, Paris e Tel Aviv. Além do movimento ter alcançado o objetivo de espalhar a mensagem dos direitos civis, o impacto que causou é de que nós mulheres não só podemos, como devemos nos manifestar.

Saí do protesto energizada positivamente, com a certeza de que não estou sozinha. Como disse Natalie Portman na marcha de Los Angeles: “Nós apenas começamos a revolução”. Fique esperto Trump, pois não vamos a lugar algum.

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