CONCRETE JUNGLE

Deborah Klabin

Deborah Klabin

Fitness
06/09/2012 - por Deborah Klabin

 

Você, corredor de aventura, atleta que adora uma loucura, um terreno acidentado, riscos, desconforto e tudo o mais, tenho o roteiro perfeito para a sua corrida: São Paulo. É isso mesmo. São Paulo, capital, o cenário mais insalubre e arriscado para uma corrida.

Esse domingo, dia de sol, resolvi fazer o trajeto minha casa/casa do meu namorado, correndo. Vila Nova Conceição/Morumbi era o trajeto. Isso implicaria em uns 8 quilômetros, distância bem razoável.

Passando por Faria Lima, Juscelino, Ponte Cidade Jardim, em nenhum segundo fiquei entediada. Em nenhum relance parei de prestar atenção e, principalmente, nem por um piscar de olhos pensei em diminuir a velocidade, tamanho meu pavor em encerrar logo essa brilhante rota.

Alguns trechos são mesmo bem policiados, afinal de contas era dia de ciclofaixa e, em véspera de eleição, quem quer encrenca, certo?

Bom, mas é muito triste ver ali, de cara, sem ser da janela do carro, o estado deplorável das calçadas da cidade, absolutamente repelente à qualquer tentativa de pedestre pró-ativo. É inaceitável que, na maior cidade do Brasil -na verdade em qualquer cidade é igualmente inaceitável- seja impossível caminhar. Simples assim. É impossível andar em São Paulo.

Isso é um desabafo de uma carioca que ama viver em São Paulo e que se entristece em constatar o óbvio: falta planejamento urbano. Falta a valorização do espaço público. Falta a constatação de que, através do olhar, se educa. Que a beleza ensina. Que construções bem feitas mudam aos poucos a cultura local. Afinal, quem aí não fica encantado ao viajar para Barcelona, por exemplo, com o requinte das sacadas, a harmonia dos jardins? Quem não pira ao ver em Paris a pavimentação bem feita, com calçadas lindamente ocupadas por cafés?

Nesses cinco anos desde que me mudei pra cá, tive sorte de sempre trabalhar perto de casa, de poder cumprir boa parte da minha agenda a pé, de bicicleta ou taxi, o que sempre gerou críticas fervorosas dos nativos que garantem: São Paulo acontece de verdade por trás dos prédios espelhados, jamais fora deles.

Mas fico pensando... uma cidade não pode ser tão hermética, tão voltada para o interior dos prédios, tão asséptica assim. Se perde muito quando não se pode circular, olhar o entorno.

O centro de São Paulo, riquíssimo em projetos arquitetônicos lindos, parece uma afronta aos seus próprios moradores. As marginais fétidas, apesar da tentativa das ciclovias recém implantadas, é completamente impraticável.

Bem mais perto: tente andar pelos Jardins e observar a padronização da pavimentação de calçadas. É triste de ver. Buracos, desníveis, estreitamentos... Envelhecer em São Paulo engessa não por falta de atividades, mas por falta de mobilidade.

A prefeitura alega que as calçadas são responsabilidade dos moradores das respectivas casas e prédios, o que não faz qualquer sentido pra mim. Andar deve ser um direito de todo cidadão, assegurado sim pelo Estado.

Em avenidas empresariais como Faria Lima, Juscellino, Berrini, e em todos os bairros de serviços, como Itaim e Vila Olimpia, se oferece, em média, 90 centímetros de largura entre muro e rua para os pedestres. Verdadeiros arranha-céus, com dezenas de andares, abrigando milhares de pessoas que precisam andar para almoçar, pagar contas, voltar pra casa, mas que se vêem espremidas em vias inexistentes.

Então eu acabei meu treino, viva -graças a Deus!-, mas pensando em que cidade a minha filha vai crescer. Será que, no lugar onde melhor se trabalha, não conseguiríamos ter os dois mundos? O interno e o externo?

As poluentes e grotescas placas de políticos recém instaladas me deixam essa dúvida. Será que algum dia São Paulo vai olhar para fora das janelas?

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