Não te devo respostas

Tainá Falcão

Tainá Falcão

Contos & Crônicas
22/08/2019 - por Tainá Falcão

Sou pouco afeita aos deveres domésticos. Mas existem duas coisas que faço religiosamente: a cama e o café coado.

Embora minha mãe insista em me ensinar a textura de um bom lençol, ainda escolho os que combinam com o papel de parede do quarto.

Sou assim com o café. Não é, exatamente, o gosto que me seduz. Compro qualquer um. Para mim, o que vale é o ritual. Todas as manhãs, chego sonolenta à cozinha de azulejo gelado, ponho a água para ferver. Jorro um pouco na garrafa que é “para não deixar o café morno”, já dizia minha avó. Ouço uns podcasts: Monja Cohen, Leandro Karnal, Padre Fábio de Mello, a depender do dia da semana e do estado de espírito.

A água quente escorre pelo coador de pano, sopra a fumaça em meu rosto, embebeda-me do cheiro do café quente, recém passado, fervido, o café, um feito meu.

– Com leite ou sem? – Perguntei antes de servi-lo.

– Tanto faz. Não tenho muito o hábito. – respondeu.

– Xiii. Tenho medo do que é capaz – brinquei após o primeiro gole.

Ele também sorriu, mas não parecia estar presente ao momento mais íntimo do meu dia.

– Posso te fazer uma pergunta?

Antes que eu lhe desse a palavra, interrompeu-me:

– Você pensa em família?

– Sinto muita falta da minha mãe. – retruquei com a ironia que me é de costume.

– Não. Eu digo: casamento, filhos … – encarou-me.

Fechei os olhos por alguns segundos. Fingi passar mal.

– Está tudo bem? – Ele me perguntou.

Eu disse que sim, embora meu desejo fosse o contrário. Não estávamos num blind date. Aliás, se estivéssemos, teria pedido licença, ido ao banheiro e escapado pela janela de fuga. Estava em minha própria casa, sem rota de emergência, sem planos a longo prazo.

Já havíamos tomado outros cafés antes, passeado de mãos dadas pelo shopping, levado o cachorro ao parque. Já havíamos discutido sobre as celebridades mais “pegáveis” das nossas listas, inventado um apelido em comum, enviado coração vermelho pelo WhatsApp. Mas nenhuma pergunta direta, profunda, capciosa como aquela.

Não lhe dei respostas imediatas. E, nem se soubesse, lhe daria. Primeiro o café. Depois a vida. Primeiro o café. Depois qualquer ferida.

Não soube o que dizer. E por não o saber, o café esfriou. Pedi-lhe licença. Fui ao banheiro. Liguei o chuveiro só para ouvir a água jorrar.

Ele me deixou um recado antes de ir embora. Estava pronto para pegar o voo de volta à cidade natal.  “Como todas as outras vezes, você foi incrível! ”, escreveu no bilhete colado ao espelho da sala. Fiquei em casa com a estranha sensação de já saber o rumo daquela história.

Algumas respostas devem permanecer em segredo para não esvaziar nossas vontades, para não diminuir nossas forças. Alguns desejos, se repartidos, nos suavizam além do ponto.

Eu mantive o silêncio. Ele não voltou para a próxima visita. Nós nunca mais tomamos café.

@marialindamaria
www.marialindamaria.com.br

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