Feliz dia dos Namorados, apaixonados pelo acaso

Andressa Steil

Andressa Steil

Você, Relacionamento, etc & tal
09/06/2017 - por Andressa Steil

Eles tiveram um encontro de olhares, que levou a uma conversa desajeitada com direito a famosa troca do número de celular. Dois dias depois já estavam marcando um encontro não mais ao acaso, mas propositalmente, ainda que não percebessem que o acaso sempre estivera presente… Tudo parecia correr bem, o que deixava a história até um pouco sem graça se um dia eles “dessem certo” e tivessem que contar aos seus amigos e parentes como foi que se conheceram. Mas graças ao famoso acaso que apadrinhou ela com ele e ele com ela, o que tinha tudo para ser um encontro simplesmente e tão somente agradável, foi repleto de pequenas confusões que fez deste primeiro encontro a melhor história para se contar desses dois estranhos e tímidos. Essa foi a conclusão deles, mas para você que chegou só agora concordar com a façanha memorável, vamos voltar um pouco?

O dia e o horário do encontro já estavam agendados: quinta às 20h. Foi decidido na terça-feira, pós domingo do primeiro “oi…!”, sem jeito, que deram e para chegar a esse dia, tiveram que simplesmente eliminar quarta e sexta. Sexta era um dia particularmente movimentado (lembre-se disso, você vai saber o porquê), com trânsito e que carrega automaticamente uma expectativa muito grande. Todos sempre esperam algo de uma sexta a noite! Quer dizer, quase todos. Para ele sexta era óbvio! Foi sua primeira sugestão. Pra ela, era ansiedade demais aguardar até sexta. Fora que se conseguisse o ver antes, teria sexta para um possível segundo encontro ou para relatar os detalhes para as amigas mais próximas e também solteiras, que de um jeito ou de outro são quase como uma torcida organizada para alguém de sua patota desencalhar. Já se falavam desde domingo a noite, quando ele foi esperto o suficiente para escrever as palavras certas e no timing certo (ainda no domingo dando a impressão que foi a última coisa que ele fez antes de dormir): “adorei te conhecer, vamos marcar aquele jantar para você me contar melhor essa história que começou, mas não terminou!”. Depois disso, segunda e terça trocaram mensagens engraçadas e leves. Até porque é tudo novidade e novidade é sempre assim, leve. Quarta ele jogava bola e por mais que ela quisesse vê-lo o quanto antes, existe aquela regra do livro sagrado que temos dentro da nossa cabeça na sessão de código de conduta em relacionamentos, onde no capítulo 1 aprendemos sobre como parecer “difícil, na medida certa para mantê-lo interessado, mas não entediado”. E então, concordaram que quinta seria o dia. O lugar ela deixou que ele escolhesse com mais um clichê: “me surpreenda!”.

O dia tão esperado chegou! Ela estava tão ansiosa que na terça, após concordarem com a data, ela já marcou a depilação com direito a buço, sobrancelha e claro, virilha – cavada. Não que ela estivesse planejando alguma ação digamos assim… Mais despida, mas vai quê, não é mesmo? Ele também estava ansioso para saber mais dela, mas sua rotina não mudou muito e seu ritual pré-encontro foi quase que inexistente.

Deu o horário e às 20h15 se encontraram no restaurante que ele escolheu. Era um lugar médio-romântico. Luzes baixas (marcou um ponto), mas música um pouco alta pra uma conversa mais intimista (perdeu o ponto), com alguns grupos de amigos e nenhum outro casal. Ela ficou se perguntando se aquele é um lugar que ele vai sempre pra um happy hour depois do trabalho, pois a cara era essa. Não tinham mais mesa para dois, então sentaram no balcão. Ela ficou um pouco incomodada, porque a mulher normalmente direciona suas escolhas pro lado mais clássico, com velas, flores, música ambiente que se permitia coexistir com um silêncio propício para criar aquele clima mais intimidador… E o homem nessas horas simplesmente se esforça, mas vamos ser sinceras, dificilmente eles conseguem agregar todas as características exigentes e algumas vezes até mesmo extra-românticas de primeira. Ela tentou relaxar e foi simpática. Em outras palavras, fez a desencanada! Um belo truque que mulheres aprenderam para surpreender homens. Ele obviamente adorou e com certeza enxergou com naturalidade e não como um truque. Homens…

Sentaram, conversaram, começaram a beber. Comeram petiscos e continuaram a beber. Primeiro ele achou que ela não ia querer beber o mesmo que ele, mas estava errado. Ela tomaria sim um copo de whisky com 2 pedras de gelo ou uma cerveja, por exemplo. Mas ele achou que vinho, pra ocasião cairia melhor. (Ponto voltando). Afinal de contas, vinho é sempre democrático, não? E tem aquele “Q” de romântico, ao mesmo tempo que um certo teor alcoólico. Ou seja, não desaponta jamais. A carta de vinhos era restrita e a escolha da uva foi de uma vinícola no sul da França. Ele tentou pedir ao garçom com sotaque francês para impressioná-la. Nada mal, esforço é sempre bem-vindo. Mas mal sabia ele que ela falava a língua do país com a capital das luzes, e sabia que o que ele pediu foi na realidade qualquer outra coisa que não uma garrafa de vinho, mas o garçom parecia acostumado com essas investidas e entendeu o que ele realmente queria. Ela sorriu e ele achou que estava conseguindo deixar uma ótima impressão e quando ele deveria ter parado fazendo desse um charme pontual, resolveu continuar com a graça e pediu pratos – adivinhe – com nomes trocados e um sotaque tão forçado quanto caipira. Ela apenas ria e pensava consigo mesma que o encontro já tinha valido a pena por esta pérola, pois se não tivessem aquele algo a mais, teriam todas as condições para serem grandes amigos.

Depois de algumas taças, eles começaram a perceber que a ventilação do local estava fraca. Ou será que o vinho que descia por suas gargantas que estava muito bom? As mãos se tocavam algumas várias vezes, sem querer ou não. E era bom! Quase duas garrafas depois, contando a história padrão que constitui um breve resumo de suas vidas (com mais partes boas do que ruins obviamente), comentando sobre viagens, trocando muitas risadas e toques de sedução, tesão pairando no ar, vontade de escutar e compartilhar, curiosidade… Resolveram que aquele lugar já tinha dado o que tinha que dar. E ela afinal se deu por satisfeita por ele ter escolhido, de forma até um pouco egoísta, um local que deixasse ele a vontade, mas que acabou consequentemente deixando-a mais confiante para experimentarem esse encontro no mesmo nível, em sintonia.

Na hora de pagar a conta ele tinha esquecido a carteira e não sabia onde enfiar a cara. A sobriedade veio forte pra ele! E ela que já estava animada, ficou desacreditada em como ele era atrapalhado! Mas pouco se importou em pagar a conta da noite. Ele ficou envergonhado, sem jeito, e prometeu que a recompensaria. Ela não se importou muito com isso, sua cabeça estava em outro lugar. Tudo que aconteceu até aquele momento tinha sido infinitamente melhor do que o fato de ele ter cometido mais essa trapalhada, que ela enxergava somente como mais motivos para não perder o bom humor. E homem é bobo, não percebe que a mulher é mais sensível pra gestos do que pra coisas… Ela o fez ficar mais calmo e deu mais um pouco da segunda garrafa de vinho que eles tinham pedido para levar pra casa. Ele logo sentia seu corpo se aquecer novamente e deixou a bebedeira boa voltar a habitá-lo.

Ao saírem estava frio! Mas as risadas e as carícias os deixavam fervendo. Numa dessas, quando ela ria de olhos fechados e inclinando a cabeça para trás, com mais uma risada gostosa, ele a segurou pela cintura e tinha tudo para ser a cena de um beijo de cinema! Mas escorregaram e quase foram ao chão, se não fosse por um bocado de sorte que fez com ele conseguisse se segurar em uma mão e puxar ela em outra evitando uma queda chata pra aquela noite fria e deliciosamente quente ao mesmo tempo. É claro que as risadas se multiplicaram, fazendo com que se aproximasse quase que involuntariamente e desta vez, aos beijos e sem tropeços. Ela sentia as bochechas ficar rosa e o corpo formigava. E ele sentia vontade de sair dali o quanto antes e de não soltá-la assim tão cedo.

Entraram no táxi entre mais beijos e claro, e muitos olhares, apesar das risadas parecerem nunca ter fim. Foram para o apartamento dele. Ela disse que só subiria para conhecer e que depois tinha que ir para a casa, pois amanhã é um dia qualquer no trabalho e ambos tem horários, compromissos, e ela se via falando sem parar, nervosa sobre esse “tabú”, já que a verdade é que ela tinha medo e também vontade do que poderia acontecer se subisse. Mas ele de um jeito doce e também maroto a convenceu dizendo que só queria mostrar-lhe sua coleção de discos…

Ela concordou e ainda no elevador, se divertiam com a companhia um do outro. Ele a fazia rir tanto com seu jeito atrapalhado e galanteador, que sua barriga doía de um jeito gostoso. E ela o impressionava com doçura, certo jeito de travessura e conversa inteligente. Entraram no apartamento e ele já foi falando para ela sentir-se a vontade, enquanto preparava duas taças com mais vinho e a embalava ao som de um disco de jazz do Miles Davis. Toda a emoção que sentiam como adolescentes em um lugar público, aquela história de pudor, de terem que se segurar por estarem se conhecendo ainda, as cobranças que toda a mulher carrega consigo, ali, naquele momento, ficaram para fora quando eles entraram e ele fechou a porta, pois afinal de contas, ela faria o que tivesse vontade.

As risadas foram diminuindo, mas o querer ficar perto foi aumentando. O jeito palhaço dele dava espaço para um alguém mais sensível, que a tirou para dançar na sala de estar daquele apartamento pequeno, mas com uma janela grande onde, do andar alto que estavam, tinham São Paulo iluminada artificialmente com seus muitos ponto de luz e também naturalmente por efeito de lua cheia brilhante, como cenário. O coração dela disparado só a fazia pensar o quão feliz ela estava por tudo que acontecerá até ali e decidiu que se arrependeria se não tirasse o maior proveito disso tudo. Deitou sua cabeça no peito dele, e dançaram por um tempo, em silêncio. A bebida ainda fazendo efeito e a calmaria os relaxando. Se encaravam em meio aos passos de dança, e decidiram, sem dizer qualquer palavra, que queriam continuar ali ainda, desse jeito perto, sem pressa… Era como se o tempo parasse para eles e o sentir dos seus corpo se mexendo com a música e pedindo desesperadamente por toques, os dava a certeza de que estavam no lugar certo e com a pessoa certa.

Alguns rodopios depois, quando os corpos voltavam a se encontrar em vezes como nos filmes onde o encaixe é perfeito, e em vezes como em outros filmes onde o encaixe é desastrado de um jeito divertido e apaixonante, se beijaram novamente, começando pelo pescoço, descendo para os ombros… E não pararam mais. As roupas começaram a deixar seus corpos inquietos e caiam no chão em ritmo de jazz.

Tudo que se seguiu depois dali foi uma sucessão de atos picantes, mulher confiante, homem interessado e dedicado, e um sentimento tão diferente… Foi intenso, bonito, gentil, extremamente prazeroso… Teve conversa depois com vergonha estampada nos rostos dos dois estranhos que se conhecem oficialmente a 4 dias, teve carinho e carícia e promessas de um futuro juntos, a começar por uma escapada da cidade grande para um casa no campo como uma tentativa de prolongar as inúmeras sensações que tanto se deliciariam e se surpreenderam nessa noite em especial. Já passara da meia noite e por coincidência era sexta-feira. Não mais quinta, dia 11, mas sim, coincidentemente, sexta dia 12. Doze de junho. Quando se deram conta, olharam-se, e exaustos, mas extremamente felizes, deram um jeito de manterem-se ainda mais próximos e entrelaçados do que já estavam e ele a abraçou com força, enquanto ela ficava em paz nos braços dele. Dali em diante nunca mais se separaram. E se você os perguntar hoje, anos depois, sobre o acaso que os acompanha, você vai saber que a resposta deles é que em seu primeiro encontro disseram sim a um pedido de namoro não verbal, não dotado de tempo com aquela confiança de que você conhece bem a pessoa que está ao seu lado e sem qualquer reflexão racional… Foi um pedido de alma. E aceito da mesma forma.

O dia dos namorados pra eles? Acontece na realidade o ano todo, pois acreditam que não precisam de um dia especial para fazer e viver algo especial. Eles são adeptos ao acaso e a tudo aquilo que você não consegue explicar. Mas é inegável que o primeiro dia que acordaram um lado do outro foi o dia em que tiveram certeza que mudara suas vidas de uma vez por todas… E para melhor.

Um grande viva e um feliz dia não só aos namorados, mas também aos apaixonados, principalmente aqueles apaixonados pelo acaso.

1 comentários

  1. Larissa disse:

    Maravilhoso! quem nunca…

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