Ao som da sedução

Andressa Steil

Andressa Steil

Você, Relacionamento, etc & tal
02/06/2017 - por Andressa Steil

Em uma noite de festa Ela estava mesmo reluzente e chamava a atenção. Não apenas pelo seu modelito, que estava bonito – porém nada extraordinário -, mas pela energia que lhe pairava naquele momento. Ela estava desacompanhada, mas tinha um parceiro fiel de dança. Era o som. Este a conduzia seduzindo-a. Ela se mexia respeitando a batida e fechava os olhos em alguns momentos em certo transe. Quando os abria, enxergava as luzes com cor saturada. E via que não apenas ela, mas muitos estavam também envolvidos com seu paceiro.

Na mesma noite, Ele saiu de casa esperando ir à uma festa que seria uma boa. Mas talvez sem grandes expectativas. Foi com os amigos. Estava solteiro e desprendido. Lá manteve um bom humor e bebia uma cerveja enquanto observava ao seu redor. De repente deparou-se com Ela envolvida no som.

Ele sem muito tentar esconder a observava constantemente, sendo as distrações poucas. Espalhou olhares. Tantos que os dela cruzaram-se com os dele algumas vezes inclusive, deixando-a alerta, mas sem intimidá-la. Após a quase longa análise, Ele aproximou-se. Ela estava com uma amiga. Amiga mais quieta, mas ainda assim compartilhando da leveza que Ela trazia.

Fazendo graça e com certo charme, Ele perguntou como Ela estava. A fez rir e Ela se sentiu confortável para naquele momento dar uma pausa na dança e prestar maior atenção nas “engraçadices” que ele dizia… Após algumas frases, ensaiadas, já esperadas, de praxe e com o mesmo objetivo de sempre, objetivo este que foi atingido, Ela compartilhou seu número de celular.

A festa continuou e terminou tempos depois. Naquela noite eles não mais se falaram. Apenas viram-se algumas vezes… Contudo, houve uma promessa de que Ele mandaria uma mensagem no dia seguinte buscando conhece-la. E Ele o fez… Começaram a falar-se e estava divertido. De novo Ele a fazia rir. Não risadas descontroladas, mas risadas inesperadas. Até porque Ele parecia mais interessado nela do que Ela nele.

Depois de conversas e tentativas de marcarem um encontro físico, tiveram sucesso algumas semanas depois. Saíram para jantar. Ela estava ansiosa, apesar de aparentemente ter um interesse mais tímido que o dele. Eles encontraram-se no restaurante japonês. Ela adora. Ele também! Foi uma escolha fácil. Ele chegou antes e Ela tinha avisado que se chegaria pouco depois. Chegando, Ela tinha certeza que Ele reagiria de forma mais receptiva. Mas Ele parecia um pouco cansado. A conversa fluiu. Mas em certos momentos. Ela se pegava um tanto entediada. Ele gostava de conversar. Pontos para ele! Mas muito se falava sobre ele mesmo… Menos pontos pra ele… No fim, o saldo continuou positivo. Mas abaixo da faixa de “segundo encontro o quanto antes, porque esse foi surpreendente”. Despediram-se com um beijo. O primeiro beijo. E foi bom. Foi ok. Na realidade Ele a pegou desprevenida e foi um tanto quanto bagunçado. Mas ainda assim, bom. Bonzinho.

No dia seguinte Ele sugeriu um vinho acompanhado de um LP da sua banda preferida de rock, no apartamento dele, que morava apenas com o irmão – irmão viajante na noite sugerida para o encontro -. Ela aceitou e dois dias depois do jantar, ainda sem os pontos que o qualificavam para o “second date”, eles se encontraram. Ela foi até Ele conforme o combinado. Chovia e não era pouco. Mas Ela mesmo assim foi.

Chegando no apartamento dele, Ela entrou contida. Não muito tímida, pois Ela não é tímida. Mas acuada. Aos poucos Ela sentiu-se mais a vontade, o que normalmente acontece, mas não tão a vontade como normalmente acontece também. Ainda assim, ignorou este fato e tornaram a conversar, ouvir a música e tomar o vinho. Aos poucos a conversa foi perdendo o rumo e eles sabiam que o que vinha a seguir envolvia muito menos papo e muito mais ação.

Ele tirou a taça de vinho da mão dela com a desculpa de que não mais podia se conter e tornou a beijá-la. Beijão. Dessa vez o beijo foi bem melhor, pensou Ela consigo mesma comparando com a despedida do restaurante japonês. Ele começou a mostrar mais vontade de seguir em frente com a “ação” do que Ela. Ela estava gostando. Mas não estava tão envolvida. Para Ela estava bem manter-se ali. Naquele estágio. E beijos vem, beijos vão, o corpo fica mais e mais próximo, o toque pedia mais pele do que roupa. Pelo menos para Ele. Ela resistia e começou a sentir-se desconfortável, coisa que apesar de desde o começo estar menos a vontade que de costume, antes não estava… E com receio de causar mal estar e também um pouco, levemente, envolvida, Ela lentamente cedeu. E o desejo dele foi consumado. Foi bom para Ela. Mas aparentemente melhor para Ele. Novamente Ela sentiu-se incompleta, com o gostinho de quero mais. E com a certeza de que ali, realmente, não tinha o ”click”, sabe?

Ele foi ao banheiro, Ela foi em seguida. Ficaram um pequeno espaço de tempo trocando carinhos. Essa provavelmente foi a parte mais gostosa. Eram carinhos carinhosos mesmo. Era cafuné. Era toque no rosto de leve. E foi possivelmente um momento que Ela,por uma fração de segundos, imaginou o tal do “click”. Mas não. Não chegou a tanto. Estavam cansados depois da rápida rapidinha e se vestiram. Beijaram-se e Ele abriu a porta para Ela. Pediu que Ela avisasse quando chegasse em casa, dando a entender que ficaria preocupado com o não recebimento desta informação.

Chamaram o elevador juntos e houve segundos de constrangimento. E por que? Novamente, pois o esperado “click” não tinha acontecido. O elevador chegou e Ela percebeu que estava com um colar a menos. Voltaram ao apartamento e encontraram rapidamente o colar. Ele elogiou o material e ela disse que tinha comprado naquele mesmo dia horas antes de encontrá-lo. Era um colar de corrente de couro marrom escuro e uma pedra da lua redondinha.

Ele a entregou o colar com mais um beijo. Ela entrou no elevador que ainda estava parado ali no andar, apertou o 0 e foi embora arrependida. Cobrando-se do acontecimento que ela queria ter evitado. Lamentou-se até em casa. Chegou bem. Mandou mensagem, sem muitos rodeios. Ele não leu, portanto sem resposta.

Na manhã seguinte Ele veio com um papo mais educado. Ela respondeu da mesma maneira… Sem cobrança, sem esperar uma atitude de maior vivacidade do outro… E a conversa morreu ali.

Ela queria que morresse. Mas Ela não queria que tivesse acontecido o que houve na noite passada. Ela refletiu e sofreu um pouco. Martirizou-se e cobrou-se mais do que deveria, provavelmente.

Cansada de pensar a respeito, aceitou e segue sem o “click”, e se me permite complementar, no caminho contrário, inclusive, de tudo que possa aproximar-se dessa conexão não acontecida.

Ele eu não sei dizer. Mas Ela segue ok. Aquele discurso de “somos jovens e vamos viver sem arrependimentos” não a convenceu e não valia o gosto amargo de arrependimento que sentira.

Passado esse momento, Ela encontra-se pronta para a próxima festa, novamente desacompanhada, senão pelo próprio som a conduzi-la, mas com mais respeito para sua intuição e mais exigente nos seus envolvimentos.

2 comentários

  1. Mariana disse:

    Nossa, que texto incrível!

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