De uma flor para outra

Andressa Steil

Andressa Steil

Você, Relacionamento, etc & tal
30/06/2017 - por Andressa Steil

Os beijos de “oi” eram pra ela calorosos e amáveis. Quem dera não tivessem fim. Mas quando acabavam, lentamente ela voltava a realidade e abria os olhos devagarinho, deparando-se com o sorriso largo dele, que ainda mantinha seu corpo incrivelmente perto. E depois desse momento as palhaçadas começavam e os sorrisos sedutores transformam-se em gargalhadas e a boca servia agora para contar as várias peripécias daquele dia exaustivo. Exaustivo pelo menos até o momento de se encontrarem, pois depois disso o cansaço nem se passava pela cabeça avoada e leve deles. E essa parceria hora turbinada com beijos e agarros, alguns mais românticos e outros mais quentes, revezava seus picos entre opiniões sinceras, sejam essas sobre política, arte, viajar para ver o mar ou simplesmente sobre a vida. E o encaixe parecia equilibrado. Em sintonia. Tranquilo e agitado ao mesmo tempo, da mesma forma que o coração dela se comportava ao estar com ele.

Hoje ela não o vê mais. Ele simplesmente decidiu que não era mais isso que queria.E ela matutava incansavelmente a cena em que ele a olhou nos olhos e em vez de tê-la contigo com carinho, usou aquele momento para lhe dizer um adeus seco. Sem muitos rodeios.

Aos poucos o tempo agiu e ela continuou sem vê-lo. Suas vidas tomaram cada qual o caminho que desejaram seguir. Mas ainda assim estavam de alguma forma presentes pelos amigos em comum e coincidências eventuais que nos fazem ter certeza que o mundo é mesmo um lugar muito pequeno. E mais calma, hoje ela relembra todo o gosto daquele beijo que antes podia não ter fim nos dias de alegria, mas que agora deixavam-na com outro gosto fazendo-a enxergar outra realidade.

Antes tão cega por seus sentimentos, assimilou que tudo que sentia estava sendo compartilhado. Mas acontece que restringiu-se apenas a ela. Já que para ele o beijo era bom, era gostoso. A companhia era sim agradável e divertida. Mas não o fizera falta nos momentos em que ele lhe dizia tchau e a via partindo e sorrindo, quase que combinando a próxima vez que se veriam naquele jeito ansioso, desengonçado e também bem paulista que ela não conseguia conter de “vamos marcar de sair, hein?! Vamos mesmo!”.

Apesar de ambos os lados da moeda serem revelados e ela poder com propriedade comentar consigo mesma sobre esses dois opostos, um mais cego e outro mais realista, ainda assim ela preferia não saber do que não via, pois assim preservaria seus sentimentos mais puros de alegria e não os contaminaria com lapsos de memória que foram sujando suas lembranças conforme as peças desse quebra-cabeça invisível aos seus olhos apaixonados se montavam em sua mente e revelavam a sua verdadeira face não tão carinhosa quanto ela vislumbrava.

E nesse período que ela pensava ter se recuperado, o tempo agiu novamente. Hoje ela segue bem. Ela pensa, de vez em quando nele e até se pergunta como ele está. Se atingiu seus objetivos, se encontrou alguém… Mas não se prende aos detalhes. As coincidências de antes costumavam desconsertá-las, por mais que ela não quisesse admitir. Hoje ela admite que até sente algo quando o vê, de longe. Fica um tantinho quanto apreensiva, mas é normal. Ela, pela primeira vez em muito tempo desde esse furacão de sentimento, até então novidade para ela que se dizia coração de pedra, decidiu que abraçar a realidade pode fazê-la um bem maior do que alimentar sonhos de forma tão intensa. Seus olhos enxergavam aquele romance como um outono romântico em Nova York e sem nem perceber ela se viu presa à um inverno frio e isolado. Com tempo a primavera tomou conta, revelando suas cores e derretendo o gelo com o começo do calor… E hoje ela é verão! Vive ensolarada, ainda que continue a encontrar algumas pouquíssimas chuvas no caminho. Se antes ela acreditava ter perdido alguém, hoje ela tem certeza do contrário. Ganhou alguém. Ganhou a si mesma e para ela mesma.

1 comentários

  1. Carolina disse:

    Que incrível, algo que todos precisamos ler.

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