A Fúria de Veneza!

Tainá Falcão

Tainá Falcão

Contos & Crônicas
03/08/2019 - por Tainá Falcão

Reza a lenda milenar de autoria desconhecida que chegar à Veneza depois do combinado é sinal de má sorte. A cidadezinha italiana com fama de romântica, para mim, está de saco cheio dos turistas abarrotados em pontes e gôndolas, disputando a tapa um espaço para o pau de selfie.

Ainda na estação de trem, a chuva de granizo indicava a fúria de Veneza.

– 12 horas de atraso – eu disse.

– Por um motivo de força maior – respondeu mamãe.

A verdade é que havíamos sucumbido ao desejo emergente das bolsinhas de grife a preço de banana em um outlet próximo. Ciente da nossa culpa, não podíamos reclamar do granizo na cabeça nem de quase sermos arremessadas do barco que nos levaria ao centro de Veneza.

Ficaríamos hospedadas na famosa Praça São Marcos. Já em terra firme, avistei, do outro lado da ponte, o leão alado, no topo de uma coluna, resistente ao dilúvio que havia engolido o chão da praça. Nem turistas nem paus de selfie. A cidade estava vazia.

Mamãe correu em direção ao leão como se tivesse visto Jesus Cristo e desceu a ponte no maior estilo “skibunda”, modalidade esportiva só vista nas dunas de areia do nordeste brasileiro.

Fomos andando pela praça sob uma passarela de tapume improvisada, onde alguns asiáticos (sempre eles!) divertiam-se fotografando sabe-se lá o que no escuro. Na saga para chegar ao hotel, além de simpáticos ratinhos, encontramos nas vielas, policiais não tão simpáticos assim.

– Nem se quer oferecem ajuda – reclamou mamãe para depois xingar, em bom som, as matriarcas dos agentes.

No hotel um senhor, que parecia ter uns cento e muitos anos, nos avisou que o elevador só atendia até o quarto andar. Subimos do quarto ao sexto, disparando ofensas contra Veneza, a chuva, os ratos, os policiais, os cacarecos desnecessários comprados nas cidades por onde passamos – as bolsas de grife a preço de banana passaram impunes.

– Essas foram um achado! – repreendeu mamãe.

Finalmente, chuveiro com água quente, cama, travesseiros e uma soda para o jantar. Acordamos com o sol tinindo do lado de fora. Da janela, vimos o leão alado vigiando, do alto, turistas e gondoleiros. Veneza estava esplendorosa – como nas fotos que havia pesquisado no Google e o sinal era claro: estávamos perdoadas.

– Vamos tirar uma selfie? – perguntei a mamãe já sentada na gôndola.

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